A VERDADE SOBRE “CATÓLICAS” PELO DIREITO DE DECIDIR

Por D. Estevão Bettencourt

Fonte: Revista PR – Nº 461 – Ano 2000 – Pág. 461. 

Em síntese: “Católicas pelo Direito de Decidir” (CDD) é um movimento norte-americano ramificado em vários países (inclusive no Brasil), que pleiteia o direito das mulheres ao aborto e à liberdade sexual, que não exclui o lesbianismo. Já em 1993 o Episcopado norte-americano declarou não poder esse Movimento ser tido como católico. Dada a atuação persistente e proselitista do grupo, os Bispos norte-americanos voltaram a se pronunciar contrariamente a CDD na data de 10/05/00.
O Movimento das “Católicas pelo Direito de Decidir” (CDD) tem tomado vulto na América inteira, inclusive no Brasil, onde se vem empenhando pela legislação do aborto. Vêm sendo divulgados alguns escritos desse Movimento, principalmente em castelhano. Em português, tem-se a brochura “Uma História mal Contada”, que em dois capítulos propugna o aborto, acusando injustamente a Igreja Católica.

O CDD tem sua história e suas teses, que já foram apresentadas sumariamente em PR 430/1988, pp. 115-123. Rejeitado em 1993 como não católico, esse Movimento foi novamente desautorado pelos Bispos norte-americanos em 10/05/2000.

Antes de reproduzir esta Segunda Declaração do Episcopado, recordaremos algo do histórico e da filosofia de CDD.

1. CDD: quem são?

1.1. Origem do Movimento

O Movimento “Catholics for a Free Choice” (CFFC) ou “Católicas pelo Direito de Decidir” (CDD) foi fundado em 1970 nos Estados Unidos para protestar contra a oposição da Igreja Católica à legislação de Nova Iorque, que permitia o aborto. Tal Movimento filiou-se à Coalisão Religiosa pelo Direito do Abordo (Religious Coalition for Abortion Rights), criada pouco depois que o Supremo Tribunal norte-americano legalizou o aborto. O CFFC apresentava-se como “uma organização docente que apóia o direito ao legítimo tratamento da saúde da reprodução (ou seja, à anticoncepção e à esterilização) e ao aborto”.

O primeiro presidente do CFFC foi um sacerdote jesuíta, o Pe. Joseph O’Rourke, expulso da Companhia de Jesus em 1974; governou o Movimento até 1979. Em 1980 a Sra. Frances Kissling assumiu a presidência da CFFC, tendo ela mesma fundado a Federação Nacional do Aborto (National Abortion Federation).

A princípio, a sede principal da CFFC era o edifício da Paternidade Planificada (Planned Parenthood) em Nova Iorque. Na verdade, estas duas organizações se associaram entre si no combate à Igreja, à família e aos nascituros. Tenham-se em vista as palavras da Sra. Pamela J. Maraldo, como presidente da Planned Parenthood Federation of America:“Não sou menos católica porque me afastei da Igreja em questões relativas à privacidade da família e à autonomia na reprodução”.
Como se vê, a Sra. Maraldo se considera “boa católica”, embora dirija a mais poderosa organização dedicada a promover o aborto. É este, aliás, o tipo de mentalidade que o CFFC tenta incutir aos católicos.

O CFFC, embora traga o título de católico, não é uma sociedade católica. A Conferência Nacional dos Bispos Católicos dos Estados Unidos declarou em 4/11/1993, que o CFFC não é uma sociedade católica: “Muitas pessoas podem ser induzidas a crer que tal organização é autenticamente católica, mas ela não o é. Não está filiada, nem formalmente nem de outra maneira, à Igreja Católica”.

1.2. As Concepções do CDD

O CFFC opõe-se veementemente à Moral católica relativa não somente ao aborto, mas também à sexualidade. O aborto pode ser uma opção lícita, visto que as mulheres devem ser capazes de tomar decisões que “melhorem sua integridade e sua saúde”; mesmo que um católico julgue ser o aborto imoral, pode ser a favor da liceidade do mesmo. A Sra. Kissling declarou que, “mesmo que o feto seja uma peça integrante da espécie humana, o valor do feto nunca poderá ser colocado acima do valor do bem-estar da mulher”.

O CFFC chegou a referir-se ao aborto como sendo “um ato sagrado”. Afirma outrossim que “a união entre heterossexuais ou homossexuais para viverem como casais, baseada na justiça e no compromisso mais do que no contrato conjugal tradicional, é moralmente válida”.

A respeito da autoridade da Igreja o CFFC declara erroneamente que o Direito Canônico “afirma o direito e a responsabilidade, dos católicos, de seguir a sua própria consciência, mesmo quando esta diverge dos ensinamentos da Igreja”. – De passagem, note-se que o Direito Canônico não propõe esse pretenso direito, pois a consciência humana não é autônoma, mas é teônoma, isto é, recebe de Deus as suas normas através das instâncias escolhidas pelo próprio Deus.

O CFFC também propugna a ordenação sacerdotal das mulheres.


1.3. CDD e Movimentos Feministas

O CFFC está vinculado a Movimentos Feministas avançados, entre os quais o de Women Church Convergence (Convergência de Mulheres na Igreja). A Convergência resulta da coalisão de vários grupos feministas, tendo como uma de suas fundadoras a Sra. Rosemary Radford Ruether, dita “teóloga católica”, que também é da cúpula dirigente do CFFC; a Convergence “acolhe todas as crenças religiosas de mulheres identificadas consigo mesmas e de homens que se identificam com as mulheres”; a sua finalidade é reinterpretar o Evangelho a partir do enfoque da libertação da mulher. A Sra. Ruether declarou que “Mulheres-Igreja” é um movimento de Cristianismo radical, que tende a ver a religião tradicional como falsa em decadência e apregoa a Nova Era, esperando que em breve comece na Terra essa nova fase da história pautada pelos princípios de uma nova ordem social.

A Sra. Ruether. Sob a direção de Rosemary Ruether foram criados rituais que acompanham os principais momentos da vida humana feminina: assim o ritual que marca o começo da menopausa, o que celebra a união de duas lésbicas, o que lamenta o nascimento de uma criança natimorta, o que acolhe a mulher que se recupera de um aborto, o que acompanha a mulher no ato mesmo de cometer o aborto. Este último se dirige em oração a Deus Mãe e Pai, enquanto a mulher que aborta é ungida com óleo, abençoada e convidada a lançar ao ar pétalas de flores… Tais rituais celebram também a decisão, da mulher, de matar o filho nascituro.

Uma das autoras de tais cerimoniais é a Sra. Dianne Neu, ex-monja feminista, que apóia o aborto e é liturgista da libertação da mulher; Neu afirma ser “católica, apostólica, romana”. É autora de um ritual dito “de duelo”, que merece especial atenção: as mulheres que tenham cometido um aborto, devem pedir ao aborteiro os restos da criança extraída; a mãe então reúne-se com seu companheiro e seus amigos, e juntos rezam orações como esta:

“Bendito és Tu, ó Santo, Mãe e Pai, que nos deste a possibilidade de decidir. Sentimo-nos tristes porque as circunstâncias da vida de N. N. (a mulher) e N. N. (o parceiro) foram tais que a decisão de levar uma gravidez a termo não foi vivificante para todos os que tomaram parte neste ato. Uma decisão tal nunca é fácil; está cheia de dores e feridas, de ira e duvidas. Nossa dileta irmã tomou uma decisão muito difícil. Prometemos continuar a apoiá-la durante a sua vida. Nós Te louvamos, ó Santo, por Tua presença nela”.
A mulher que abortou, explica por que tomou essa decisão; abre então uma cova no jardim com a ajuda do seu companheiro e os dois proferem a seguinte oração, enquanto enterram o bebê abortado:

“Ó Mãe Terra, depositamos este espírito para que descanse em teu seio”.
Neu sugere que este rito e similares sejam aplicadas para “sanar” e afirma que servem para celebrar a espiritualidade da mulher.

Algumas orações chegam a louvar o demônio. Assim, por exemplo, Thomas Marron redigiu poesias intituladas “Canções aos Anjos”, que tecem as glórias de Lúcifer e outros anjos. O inferno é tido como “tão ardente e belo quanto o céu; todos os anjos estariam bailando para Lúcifer, cujo suave é lírico e santo.
2. Falam os Bispos

O Bispo de Galveston-Houston, D. Joseph A. Diorenza, Presidente da Conferência Nacional dos Bispos Católicos / Conferência Católica dos Estados Unidos da América, emanou a seguinte declaração sobre a organização chamada “Católicos para uma Opção Livre” (Catholics for a Free Choice):

“Há vários anos, um grupo que se define “Católicas para uma opção livre” (CFFC) tem apoiado publicamente o aborto, afirmando que esta reivindicação está em sintonia com o autêntico ensinamento católico. Tal reivindicação é falsa. Com efeito, a atividade deste grupo orienta-se para a rejeição e a deturpação do ensinamento católico acerca do respeito e da salvaguarda devidos à inerme vida humana do nascituro.

Diversas vezes a Conferência Nacional dos Bispos Católicos (NCCB) afirmou publicamente que CFFC não é uma organização católica; não fala em nome da Igreja Católica e de fato promove posições contrárias ao ensinamento da Igreja, como é articulado pela Santa Sé e pela NCCB.

A nível prático, CFFC é uma arma do lobby abortista nos Estados Unidos e no mundo inteiro. Trata-se de um grupo de defesa, que se dedica a apoiar o aborto. É patrocinada por um determinado número de poderosas e ricas fundações particulares, sobretudo norte-americanas, e tem em vista promover o aborto como um método de controle demográfico. Esta posição é contrária à atual política das Nações Unidas, bem como às leis e disposições da maioria das nações do mundo inteiro.

Na sua última campanha, CFFC concentrou-se os seus esforços nas relações públicas para pôr fim à presença oficial, e calar a voz moral da Santa Sé como Observador Permanente junto das Nações Unidas. Os seus esforços nas relações públicas têm ridicularizado a Santa Sé com uma linguagem que faz recordar outros episódios de fanatismo anticatólico, de que no passado a Igreja Católica foi vítima.

Como os Bispos católicos dos Estados Unidos têm afirmado há muitos anos, o uso do vocábulo católico como trampolim para promover a eliminação da vida humana inocente e ridicularizar a Igreja é ofensivo não só para os católicos, mas para todas as pessoas que esperam honestidade e clarividência nos pronunciamentos públicos. Declaramos uma vez mais, com maior ênfase: “Em virtude da sua oposição aos direitos humanos de alguns dos mais desprotegidos membros da raça humana, e dado que as suas finalidades e atividades contradizem deliberadamente os ensinamentos essenciais da fé católica… Católicas para uma opção livre não merece reconhecimento nem apoio como organização católica” (Comissão administrativa da Conferência Nacional dos Bispos Católicos, 1993).
 

Washington, 10 de maio de 2000”.

Comentando, devemos observar que não pode existir direito de decidir sobre questões de fé e de Moral, pois no caso a decisão vem de Deus, que fala pela lei natural e pela Revelação escrita e oral. Assim é o próprio Criador quem ensina que não é lícito matar uma criança inocente, e que existem dois sexos para que se complementem mutuamente, de modo que é aberrante alguém procurar no mesmo sexo a sua satisfação sexual. Não pode haver argumento que prevaleça sobre estes ditames, que não foram forjados por autoridades do sexo masculino, mas pelo próprio Deus.

À guisa de complemento: o grupo de Católicas pelo Direito de Decidir, entre outras atividades, tem-se interessado por eliminar da assembléia da ONU a Santa Sé, porque contradiz aos seus intentos abortistas. – Verifica-se, porém, que tal campanha tem dado resultados inesperados: em menos de dois meses, mais de duas mil associações católicas, protestantes, mórmons e muçulmanas firmaram uma declaração de apoio à Santa Sé, provenientes de mais de cinqüenta países dos cinco continentes. Sejam citados o grupo protestante muito prestigioso Focus on the Family e a Sociedade muçulmana Al-Khoel Foundation, que dirige algumas das mais importantes Universidades do Oriente Médio.

À Santa Sé toca o posto de Observador, sem direito a voto nas assembléias plenárias, mas com direito a tomar parte nos debates. À Campanha de oposição respondeu o Parlamento norte-americano com um voto de apoio à Santa Sé, cujo texto será publicado em nosso próximo número.

 Para citar este artigo:

BETTENCOURT, D Estevão. Apostolado Veritatis Splendor: “CATÓLICAS” PELO DIREITO DE DECIDIR.

Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4711.  

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